“Não é a carne e o sangue, e sim o coração, que nos faz pais e filhos”
FRIEDRICH VON SCHILLER, THEATER – VOL. 4
O MENINO ENTROU no quarto e trancou a porta no instante em que a mãe corria para agarrá-lo. Ele afundou na cama e pôs o travesseiro sobre a cabeça, tentando encobrir os gritos escandalizados e o estrondo das batidas fortes na porta.
Era de fato tolice esperar que a mãe fosse mudar algum dia. Violenta, jogava a culpa no filho por absolutamente tudo que acontecia dentro de casa. Se o dinheiro acabava, era culpa dele, que exigia gastos demais e pouco trabalhava para repor as despesas; se alguma coisa dentro da pequena casa quebrasse, era culpa dele, que corria, feito um louco, entre os móveis velhos, pouco se importando em tomar cuidado; se não havia comida, era culpa dele, sempre se alimentando em excesso, incapaz de conseguir um grão sequer de arroz para pôr na mesa. E seu marido era daquele jeito, bêbado, imprestável, que só voltava para casa à noite para dormir, por culpa dele, do filho: um filho indesejado, que chegara apenas para arruinar a vida do casal antes feliz.
A criança sofria com isso. Sofria por ter de aguentar a mãe que enumerava, infeliz, os muitos motivos pelo qual ele acabara com sua felicidade e com a de seu marido. Sofria com a raiva da mulher, com o modo com que ela o espancava, quase diariamente, despejando suas frustrações sobre ele. Acima de tudo, sofria com a falta de amor, de cuidados, de afeto: enquanto sua mãe parecia nutrir verdadeira raiva e repulsa por ele, seu pai resolvera simplesmente esquecer tudo, entregando-se às bebidas, vivendo perambulando pela cidade, mal se lembrando de que tinha uma casa, uma mulher e um filho para criar.
Pelos lamentos que o garoto ouvia de sua mãe, antes de seu nascimento o casal vivia feliz e tranquilo. Não eram ricos; de modo algum, mas conseguiam sobreviver sem muitas dificuldades e à custa de seu próprio trabalho honesto. O pai era um conhecido sapateiro, requisitado até pelos indivíduos mais ricos das redondezas; a mãe, uma vendedora de salmões no mercado da cidade.
Mas isso mudara após o nascimento da criança. A renda não era suficiente para sustentar um novo membro na família, e o simples fato de criar um filho tornou-se uma experiência torturante: o casal era jovem, inexperiente, sem paciência nem estrutura alguma para atender às muitas necessidades que um bebê exigia. A relação entre marido e mulher esfriou, e o ambiente no interior da casa foi, aos poucos, tornando-se insuportável; já não tinham tempo para os dois, e a mulher logo largou seu emprego na barraca de peixes, de má vontade, para dedicar-se exclusivamente ao filho e à casa.
A perda do salário da mulher (por menor que fosse) apenas agravou a situação; como que levados por uma bola de neve, o casal mergulhou numa série de infelicidades crescentes: o marido rapidamente perdeu a motivação para trabalhar ao perceber que seu pequeno salário de sapateiro, sozinho, não era suficiente para três pessoas. Assim, entregou-se à depressão, para em seguida tentar reanimar-se com o álcool. Tentando obter algum dinheiro, a mulher começou a lavar roupas; desse modo podia trabalhar sem sair de casa. Mas o serviço não rendia praticamente nada; a casa outrora organizada agora caía aos pedaços, os cômodos estavam sujos, já que a mulher não tinha tempo nem forças para limpá-los, e frequentemente eles comiam apenas uma vez por dia.
A mãe sem dúvida ligara essa decadência à criança, e parecera criar verdadeira aversão pelo filho; sentimento que apenas crescera ao longo dos anos, enquanto seus sonhos e sua vida passada tornavam-se cada vez mais distantes e difíceis de serem retomados…
Continua xD
1000th post - GIF of every season finale
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(Source: d0vestep)
Goodbye life =D
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(Source: thehalfenchantress)